Idolatria

Fenômeno não mais restrito aos grupos religiosos, agora diferentes ajuntamentos de pessoas esqueceram o que é Filosofia e suas contribuições, estão mais preocupados em reverenciar pessoas ao invés de ideias da realidade, da verdade das coisas.

Um ar de superioridade, o desdém a qualquer fenômeno que não seja racionalista, e a convicção de que toda a  experiência humana foi explicada por fulano ou sicrano, deixando a impressão de que as ideias e um encadeamento de argumentos são obra de uma mente iluminada e genial, que por ela mesma, conseguiu desbravar todos os mistérios sozinha e deve ser reverenciada para além daquilo que lhe é meritório.

O apelo emocional envolvido não é novo e nas universidades é comum conhecer pessoas que nem mesmo concluíram um curso superior se intitularem como Lacaniano, Lockiano, Freudiano, Platônico ou Aristotélico. Sair por aí com plaquinhas de “Fulano tem Razão” ou “Mais Fulano, menos Sicrano” como se as ideias que foram descobertas e organizadas em uma determinada obra, viessem de sua clarividência e não pertencentes a realidade das coisas, da verdade do que existe,  do certo e o errado, de que formas de organização humana gerarão sucesso e outras fracasso, se não estiverem em conexão com a lógica intrínseca aos limites e disposições da natureza humana e das coisas.

A idolatria no meio intelectual é vantajosa para a afirmação existencial, é reconhecer-se num grupo de pessoas, é também abrir mão da independência pensativa para buscar em todos os problemas, as respostas já sacramentadas por aquele que é um intelectual transmutado em guru, no pior sentido do termo.

A idolatria no meio intelectual deixa o adepto preguiçoso, não há busca da justificação lógica até os princípios elementares, somente a preocupação em não desagradar os colegas que trabalham para que mais pessoas sejam inseridas na adoração irrestrita e inquestionável.

A idolatria no meio intelectual também é perceptível pela necessidade recorrente de alardear a relevância do intelectual para além das ideias organizadas em suas obras mas como fator determinante para grandes mudanças políticas sociais; Mesmo que não haja nenhum fato objetivo constatável para tal afirmação.

Para aqueles que se auto impõe a disciplina do pensar, é urgente a reflexão sobre as bases de seu pensamento, e a matéria prima dos pensamentos é a realidade das coisas. Premissas e consequências em consonância com a verdade factual do mundo, das coisas, das dinâmicas humanas, na vida em sociedade.

Se seu pensar está ligado a um ser humano que descreveu a realidade e a organizou em uma teoria, você abdica a responsabilidade do processo contínuo de avaliação, de fortalecimento de suas premissas. Você não é melhor, na verdade é pior que alguém considerado religioso, idolatra por fé e esperança num futuro vindouro de uma escatologia seja ela qual for.

Aquele que é idólatra religioso é mais respeitável, por que na adoração da representação, está com vistas à figura do sagrado da qual tem fé. Já o idólatra intelectual cultua um ser tão passível de falhas quanto a si mesmo, deposita sua fé e esperança em alguém que a qualquer momento entrará em contradição, pois ao homem não foi dada a capacidade de manter coerência em todas as adversidades e desafios que a vida pode proporcionar.

Cabe ao pensador independente manter sua âncora moral na mais forte epistemologia, naquelas verdades consolidadas e verificáveis pela experimentação e pelo pensamento lógico dedutivo. Reverenciar alguém por sua importância histórica não pode se tornar numa adulação a um ser humano considerado infalível, sob a pena já premeditada de invariavelmente deparar-se com um escorregão moral ou lógico do intelectual em questão.

 

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