O Apelo a Complexidade na Filosofia

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A necessidade de distinguir o certo do errado pode levar a enganos e fazer negligenciar ou esquecer a realidade do que foi a origem da filosofia e seus objetivos.

O falar difícil, a utilização de palavras labirínticas, o encadeamento de frases intrincadas  foi fator determinante, para que a filosofia  fosse reconhecida na obtenção de conhecimento e esclarecimento de um povo a dois milênios atrás?

A relevância da pergunta aumenta na medida que os protagonistas do saber filosófico são investigados. É fácil perceber em algumas “filosofias” a criação de teorias que visam a utilização de artifícios linguísticos para causar falsas impressões, conseguir como consequência, prestígio, obtenção de poder e assim a manipulação da sociedade, para que vontades ardilosas possam ser satisfeitas.

Sócrates no clássico texto platônico nos ajuda a entender o rigor da boa filosofia e a necessidade do desenvolvimento de caráter para que nada seja aceito que não tenha em si consistência.

Após alguns esclarecimentos sobre seu método de aplicação de uma investigação filosófica Sócrates diz a Teeteto:

“Se te expus tudo isso, meu caro Teeteto, com tantas minúcias, foi por suspeitar que algo em tua alma está no ponto de vir à luz, como tu mesmo desconfias.
Entrega-te, pois, a mim, como o filho de uma parteira que também é parteiro, e quando eu te formular alguma questão, procura responder a ela do melhor modo possível. E se no exame de alguma coisa que disseres, depois de eu verificar que não se trata de um produto legítimo mas de algum fantasma sem consistência, que logo arrancarei e jogarei fora, não te aborreças como o fazem as mulheres com seu primeiro filho. Alguns, meu caro, a tal extremo se zangaram comigo, que chegaram a morder-me por os haver livrado de um que outro pensamento extravagante. Não compreendiam que eu só fazia aquilo por bondade.
Estão longe de admitir que de jeito nenhum os deuses podem querer mal aos homens e que eu, do meu lado, nada faço por malquerença pois não me É permitido em absoluto pactuar com a mentira nem ocultar a verdade.” (Teeteto, Platão – pg 11)

O que torna legítimas reflexões filosóficas que as distinguem de outros pensamentos meramente casuais, sem o devido rigor de fundamentação é a consistência argumentativa que corrobora o que é dito na utilização da linguagem com aquilo que se manifesta em regularidade na realidade.

É comum apontar como sinal de fraqueza em determinado filósofo sua falta de complexidade, ou alegar que um livro é mal escrito pelo número de páginas que foram redigidas. Porém uma boa filosofia não necessariamente está vinculada a complexidades, mas a fidelidade com os conteúdos da realidade que ratificam o verdadeiro e rejeitam aquilo que é falso.

O desenvolvimento da ciência auxilia a boa filosofia na medida que testa e produz mecanismos de confirmação da teoria, veja, não é o que cientistas tem a dizer que é relevante, mas o que eles conseguem provar através de experimentos. A corroboração lógica com experiências factuais é importante para que teorias grosseiras sejam descartadas.

Por exemplo, a alegação de relatividade da realidade é facilmente refutada pela engenharia, que constata que os materiais manipulados para construções, não são passíveis de alterações fenomênicas. Existe uma delimitação epistemológica que a define em sua essência que dá ao homem previsibilidade para manipula-la e saber que dependendo do arranjo formulado, um prédio ficará sustentado durante séculos e não há relatividade que abalará a concretude de uma viga de aço.

A que se fazer vigília e atentar os ouvidos aqueles que querem fazer da filosofia o antro das discussões ininteligíveis. As coisas para ser entendidas, principalmente as fundamentais, não carecem de grandes elaborações discursivas, pelo contrário, os grandes filósofos nos deixaram as provas cabais de que a boa filosofia pode ser praticada em praça pública, pois está mais preocupada em eliminar aquilo que é mais abjeto nas relações humanas, o desejo de manipular o outro utilizando de artifícios retóricos desprovidos de consistência lógica e conexão com a realidade.

Aristóteles sintetiza:

“Todavia, consideramos que o saber e o entender sejam mais próprios da arte do que da experiência, e julgamos os que possuem a arte mais sábios do que os que só possuem a experiência, em cada um dos homens, corresponda à sua capacidade de conhecer. E isso porque os primeiros conhecem o puro dado de fato, mas não o seu porquê; ao contrário, os outros conhecem o porquê e a causa.

Por isso consideramos os que têm a direção nas diferentes artes mais dignos de honra e possuidores de maior conhecimento e mais sábios do que os trabalhadores manuais, na medida em que aqueles conhecem as causas das coisas que são feitas; ao contrário, os trabalhadores manuais agem, mas sem saber o que fazem, assim como agem alguns dos seres inanimados age por certo impulso natural, enquanto os trabalhadores manuais agem por hábito. Por isso consideramos os primeiros mais sábios, não porque capazes de fazer, mas porque possuidores de um saber conceptual e por conhecerem as causas.”  (Aristóteles, Metafísica, pg, 4,5)

Será na correlação conceptual do porquê e do conhecimento das causas que o homem deve estabelecer seu saber, se há conexão e nenhuma contradição, estamos diante da realidade dos fatos, se há alguma coisa que não se encaixa e fica nebulosa, é preciso um olhar cético, a revisão, o pedido de esclarecimento para que não sejamos enganados por apelos a complexidade que geralmente buscam mascarar intenções impronunciáveis.

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