A Urgência do Senso das Proporções

“No entanto, deve-se usar os meios democráticos apenas com propósitos defensivos; ou seja, deve-se fazer uso de uma plataforma antidemocrática para ser eleito por um eleitorado antidemocrático para implementar políticas antidemocráticas – isto é, anti-igualitárias e pró-propriedade privada. Ou, colocando de outra forma, uma pessoa não é decente por ter sido eleita democraticamente. Isto faz dela no máximo um suspeito. Apesar de uma pessoa ter sido eleita democraticamente, ela ainda pode ser uma pessoa decente e honrável; já ouvimos falar de uma que tenha sido.”   (Hans Hermann Hoppe – O que Deve Ser Feito, pg 26)

No terreno das substâncias, da matéria, é fácil ponderar e entender a proporção das coisas. A capacidade de provar está mais próxima da averiguação dos sentidos, sentir a diferença entre texturas, peso, funcionalidade, efetividade para determinada finalidade, por isso ninguém relativiza as ciências que estão próximas daquilo que é chamado na filosofia de Epistemologia.
Porém quando se trata de assuntos que rodeiam a Ética, todos ficam à vontade para sem a deliberação apropriada dar seus pitacos, esquecendo a complexidade que pode ser avaliar a atitude de outrem.

Esse erro será recorrente e a crítica infundada se o indagador não conhecer a teoria filosófica que defende e que quer questionar, pois a linguagem sim tem sua relatividade no espaço onde é praticada e no tempo que é utilizada, e pode ser facilmente deturpada se as premissas dos argumentos não estão bem definidas em toda sua abrangência.

Está na moda criticar os Liberais, seja por que estes entendem que querem ser submissos a um arranjo estatal, seja por que estão dando a cara a tapa, se expondo ao arranjo político brasileiro na luta deliberativa para a definição de leis. No entanto, há legitimidade na utilização das respectivas propriedades privadas na busca de um governo que se valha do consentimento da maioria.

A anacronia que aponto aos críticos anarcocapitalistas é não entender que a criação de uma sociedade livre, passa pelo processo de conscientização da população sobre as dimensões de seus direitos legítimos, vida, liberdade e propriedade, mas que a ação efetiva de delimitar um espaço, cuidar dele, e lutar para que uma secessão seja concluída é mais importante que vídeos na internet. E nenhum ancap hoje no Brasil tem agido nessa direção.

Há aqueles que como eu, acreditam que a ação liberal ajuda o avanço do pensamento anarcocapitalista, uma vez que algum grau de liberdade se estabelece, as pessoas não aceitam retroceder ao modelo de controle, vide o ocorrido em Hong Kong; E mesmo que liberais visem um masoquismo estatal em menor escala, estes trabalham para uma transição de um modelo centralizado de poder, para um modelo descentralizado que viabilizará a possibilidade de secessão que hoje é impossível.

Por isso é importante que as críticas aos liberais seja muito bem analisadas para que a luta pela liberdade não se transforme em críticas infantis e colaboração para confusão na discussão.

Por exemplo, é fato pacífico que as punições das leis estatais brasileiras são pequenas e que por isso a sensação de impunidade prevalece. Então um Liberal na condição de deputado propõe o aumento de pena em casos de denunciação caluniosa com vistas eleitorais. A medida deveria ser celebrada por Liberais e ignorada por anarcocapitalistas, uma vez que a mentira nunca foi relevante para a moral libertária e as ideias da liberdade. Também por que aqueles que utilizam da mentira como modo sabido de ação defendem ideias de controle social e repressão das liberdades.

Libertários nunca tiveram um histórico da utilização da mentira para fazer avançar a verdade das coisas, defender a possibilidade da mentira como estratégia para eliminar o estado é um contra-senso total. Mas alguns gurus ancaps, acusaram um Liberal de censura à liberdade de expressão, sendo que a lei das Fake News deixa claro, os que divulgam uma notícia falsa sem o conhecimento manifesto da informação leviana, não estão cometendo nenhuma infração.

Para piorar os gurus ancaps mostraram total ignorância sobre o funcionamento do ordenamento jurídico que quer combater e do princípio “in dubio pro reu”, manifesto no artigo 386 do Código do Processo Penal:

“Não conseguindo o Estado angariar provas suficientes da materialidade e autoria do crime, o juiz deverá absolver o acusado.”

Como aqueles que dizem ser defensores de uma Ética incorruptível tiram conclusões falaciosas, colaborando com progressistas e comunistas?

Esse é o problema de alguns ancaps, deixar que emoções e sua ânsia em ver avançar o desmantelamento do estado, culpar Liberais por falsos problemas que na verdade são passos positivos no sentido de punir aqueles que sabemos utilizar deliberadamente da mentira como método de agir politicamente.

Senso das proporções, capacidade de reconhecer na realidade das coisas, suas propriedades, limitações e abrangência. E no âmbito das abstrações, da linguagem, conseguir avaliar os conceitos e entender suas aplicações, fazendo com que suas manifestações estejam em coerência com os princípios defendidos.

O senso das proporções aplicado a política faz necessário o exercício da prudência, de não se entregar as emoções para ouvir os lados de uma desinteligência e avaliar até que ponto, suas atitudes irão colaborar ou atrapalhar o avanço de seus próprios objetivos.

Desde quando Liberais em seu propósito por descentralização, por eliminar inúmeras ações do governo, por ver com simpatia as Leis de Mercado podem ser piores que progressistas e socialistas?

Só na cabeça doente de alguém cujo o senso das proporções não está claramente definido.

Entender que imposto é roubo é fácil, difícil é perceber as implicações de determinadas ações, tornar o estado mais eficiente, é dar um passo na direção de menos controle e mais liberdade. O maior grau de liberdade faz surgir na concorrência do mercado soluções mais eficientes, que em contraposição pressionam o estado a duas medidas, ou tornar-se ainda mais eficiente ou terceirizar suas ações. Veja o exemplo das criptomoedas que pressionam o estado a tornar as moedas estatais menos inflacionárias, logo menos corrosiva do poder de compra da população.

Cabe a nós libertários mostrar que benefícios da concorrência advém da lógica intrínseca a maior liberdade individual e econômica, mas não será na bolha dos grupos de internet que isso avançará.

Lugar de anarcocapitalistas é nos ambientes onde há monopólio do discurso progressista, para que aja uma contraposição lógica, mas será que os gurus vão se dispor a tal desafio?

Eu acho que não, infelizmente.

“Palavras do pregador, filho de Davi, rei em Jerusalém.
Vaidade de vaidades, diz o pregador, vaidade de vaidades! Tudo é vaidade.”
Eclesiates 1:1,2

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