O Sofrimento e a Inexorabilidade do Devir

Se nas ciências da natureza o objeto é consagrado a observações, experimentos, reflexões e posteriormente a conclusões que digam suas características, suas ações e possíveis aplicações, ao pensarmos nas abstrações derivadas da moral, temos um universo de possibilidades de interpretações que dificultam a determinação daquilo que é universal na experiência humana.

O sofrimento e a dor podem ser entendidos de forma ambígua dependendo da situação que foi presenciada, se resultante de um processo das relações na lida com a sobrevivência, essa dor e sofrimento tendem a ser louváveis e indicados como certificante de um processo legítimo no caminho do amadurecimento. Se o sofrimento e a dor aparecem como ruptura de uma ordem estabelecida, de expectativas entendidas como razoáveis a uma vida normal, quebra-se o nexo causal e a frustração tira-nos do eixo, a ponto de perguntarmos a nós mesmos, qual é o valor em sermos submetidos a uma corrente de contingências que parecem ser passíveis de controle, mas que são independentes de nossos desejos e vontades?

O devir como conceito filosófico aparece na Grécia antiga através de Heráclito de Éfeso, que dirá que, nada nesse mundo é permanente a não ser a mudança e a transformação. Entender as derivações desta constatação na realidade da condição humana, leva a aceitação daquilo que é, e o que não é passível de ação, o que pode ser adaptado e mediado para que as transformações causem o menor sofrimento possível.

Se nada está passível a permanência e a mudança tende a causar nos homens dois resultados possíveis, alegria ou tristeza, cabe aos homens entender as possibilidades das transformações e os resultados que delas advém. A está altura o conselho do patrono da Filosofia, Sócrates, se faz profícuo uma vez que conhecendo a si mesmo em suas potencialidades, muitos dos sofrimentos podem ser amenizados, mas falar é mais fácil do que fazer.

A experiência de conhecimento de si, passa por perceber a urgência da necessidade da mesma, pela compreensão dos benefícios que serão adquiridos e por vencer resistências psicológicas que fazem com que respostas simples sejam aceitas ao invés do trabalho árduo de verificação e confirmação, de uma inspeção sincera de causas e consequências que levaram a situações de sofrimento mas que estão enraizadas a hábitos e costumes que dificultam uma atitude de ruptura, fazendo do trabalho de criação de alternativas, algo muito elaborado, que demanda criatividade e um conjunto complexo de ações que a maioria não consegue sequer vislumbrar.

Um exemplo factível é o jovem em período emancipatório. Ele tem expectativas de como deve ser a vida e quais são seus padrões éticos morais, dentro do que lhe é permitido ele tem um ímpeto a enfrentar a autoridade estabelecida com vistas a afirmar suas convicções. Porém para concretizar sua cosmovisão certas conquistas precisam ser feitas que lhe trarão dor e sofrimento e outras que trarão mudanças de paradigmas. Dentro deste dilema moral, existirão os jovens que ao se defrontarem com os obstáculos escolherão o caminho do enfrentamento e buscarão viabilizar as condições para que suas ideias sejam colocadas em prática. Ou seja, o jovem vai encontrar um emprego que possibilite sustentar a vida da forma como foi pensada, buscará viabilizar todo o processo de sobrevivência independente da intervenção e do monitoramento das figuras que eram garantidoras do seu bem-estar.

Já outros jovens ao se defrontarem com a dificuldade e os esforços necessários para que a emancipação seja concluída com sucesso, calcularão que o esforço é demasiado em vista dos benefícios já vigentes, e passam a tratar o sofrimento de vivenciar suas contrariedades como algo tolerável, impossibilitando um processo consagrado como da ordem da normalidade.

A ambiguidade das decisões da vida não impedem a ocorrência do devir, impõe apenas uma alternativa aos viventes, pensar em modos de vida que resultem e mais ou menos sofrimento. O pensar se torna cada vez mais urgente na medida que aquele que pensar melhor, conseguirá ter mais informações e capacidade de deliberação para num horizonte mais estendido poder tomar uma decisão que resultará em menor esforço, maior satisfação, e menor sofrimento.

A fuga do sofrimento tem sido opção da maioria, mas é a atitude menos inteligente, pois o sofrimento e o devir são verdades apodíticas, lutar contra elas tende apenas em represá-las e aumentá-las. A atitude menos danosa ao homem é pensar soluções, em vista de suas disposições individuais, que possibilitarão a capacidade de cálculo para um caminho de menor sofrimento.

“O homem tem uma única alternativa básica: pensar ou não, e é essa a medida da sua virtude.”  (A Revolta de Atlas – Ayn Rand)

 

 

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