O Cínico e a Necessidade do Desprezo como Virtude.

Sendo, pois, de duas espécies a virtude, intelectual e moral, a primeira, por via de regra, gera-se. e cresce graças ao ensino — por isso requer experiência e tempo; enquanto a virtude moral é adquirida em resultado do hábito, donde ter-se formado o seu nome por uma pequena modificação da palavra (hábito). Por tudo isso, evidencia-se também que nenhuma das virtudes morais surge em nós por natureza; com efeito, nada do que existe naturalmente pode formar um hábito contrário à sua natureza. Por exemplo, à pedra que por natureza se move para baixo não se pode imprimir o hábito de ir para cima, ainda que tentemos adestrá-la jogando-a dez mil vezes no ar; nem se pode habituar o fogo a dirigir-se para baixo, nem qualquer coisa que por natureza se comporte de certa maneira a comportar-se de outra. (Aristóteles, Ética a Nicômaco – Livro II)

O cinismo foi ética filosófica que ensinava a virtude de uma vida simples segundo a ordem natural das coisas. Despido de vaidade e luxo a compreensão de que o homem para viver precisa de pouco e essas poucas coisas, passam por ações virtuosas em detrimento de bens materiais.

O objetivo dos filósofos cínicos era a eudaimonia, desenvolver a capacidade de lucidez, libertando-se da ignorância, da insensatez e presunção. Esses vícios não combatidos estão atrelados a falsos julgamentos de valor, desejos não naturais e um caráter maculado.

Não será o cinismo ancestral filosófico que trataremos aqui. A palavra perdeu a extensão de seu significado e cristalizou seus aspectos negativos. Hoje é comum significá-lo por certo desdém e desfaçatez, uma predisposição a afronta, a tudo aquilo que for considerado correto, costumeiro e estabelecido.

O cínico contemporâneo não utiliza do Logos (Razão) como seu guia para estabelecer o justo do injusto, o certo do errado. Está mais próximo da rebeldia sem causa, a necessidade de impressionar, pelo prazer e satisfação em ser visto como agente desavergonhado. Entre os pseudo-cínicos a palavra coragem é vulgarmente utilizada, o equívoco é grosseiro, uma vez que a coragem só se manifesta quando a desvantagem, o perigo inescapável, não paralisa a ação em direção ao objetivo pretendido. Ele não tem como recompensa virtude, mas a aprovação e admiração de terceiros.

Agora cabe tratar do desprezo como virtude, essa ação foi revestida de significação emocional não por uma qualidade moral, mas um sentimento de antipatia, de desrespeito, denominado a pessoas com uma pretensa superioridade.

O desprezo pode ser virtude na medida do significado de domínio moral. Trata-se da capacidade uniforme e continuativa de deliberação sobre as ações justas e injustas, certas e erradas que precisam de princípios e hábitos correspondentes. O desprezo será arma moral para afastar aqueles que são degenerados, ou seja, que por suas escolhas estão num nível de depravação, que orientações, admoestações e advertências não geram os resultados necessários de arrependimento. Lembrando que a única forma de verificação do arrependimento é o abandono das ações ilegitimas.

 

O ato de desprezar deve ser guardado como último recurso para um enfrentamento de origem moral. Por que se mal utilizado pode voltar-se contra aquele que o utilizou, na medida que desprezar é repreender o vício alheio, se colocando como a opção virtuosa de caráter. Se o desprezo é trocado pelo perdão, aqueles que estão de fora perdem a referência de caráter e todos são jogados no mesmo balaio viciado.

O perdão tende a funcionar com aqueles que se envergonham do erro cometido, ao se defrontarem com a desculpa imerecida, a vergonha tende a aumentar fazendo com que o errante se vigie para não ser esmagado pela culpa.

Desprezar segundo princípios pode ser libertador ao desprezado, pois se o erro contumaz não foi percebido como danoso, somente uma medida potente pode chamar a atenção de maneira eloquente, fazer pensar aquele que não percebe estar em um abismo moral.

Aristóteles nos ajuda a entender a necessidade de censurar:

Mas não só os vícios da alma são voluntários, senão que também os do corpo o são para alguns homens, aos quais censuramos por isso mesmo: ao passo que ninguém censura os que são feios por natureza, censuramos os que o são por falta de exercício e de cuidado. O mesmo vale para a fraqueza e a invalidez: ninguém condenaria um cego de nascença, por doença ou por efeito de algum golpe, mas todos censurariam um homem que tivesse cegado em conseqüência da embriaguez ou de alguma outra forma de intemperança.
Dos vícios do corpo, pois, os que dependem de nós são censurados e os que não dependem não o são. E, assim sendo, também nos outros casos os vícios que são objetos de censura devem depender de nós. (Aristóteles, Ética a Nicômaco – Livro III)

O cínico contemporâneo é aquele que merece e precisa da censura, do desprezo dos que guardam e zelam pelas noções de justiça. Cada um que compactua com um cínico, por cautela, senso de dever, solidariedade, caridade ou compaixão; Na verdade está fortalecendo as imoralidades contidas no caráter do delinquente. O cínico percebe que suas ações não têm como resposta reprovação mas compreensão e conivência. Logo não devem ser tão ruins assim, posso continuar sendo como sou.

A utilização do desprezo como virtude passa necessariamente pelo processo anterior de orientação, admoestação e advertência. Caso os comportamentos reprováveis persistam, só o desprezo total e irrestrito poderá causar o sofrimento necessário para uma reflexão sobre a ordem das coisas.

Aristóteles é preciso quando fala da virtude moral como adquirida através do hábito, que não é natural, se dá no processo do aprendizado na prática. Então da mesma forma os vícios morais devem ser combatidos com ações de mesma gradação que a neutralize. Uma geração foi criada percebendo que suas ações não tinham consequências na realidade, o nível de depravação esgotou as possibilidades de repreensão, o que resta para que virtudes possam ressurgir como comportamento vantajoso na lida da vida social é o desprezo como ponto de referência, como marcador, distinguindo que discussão não é bate boca, que respeito pressupõe uso adequado da linguagem, fidelidade a acordos, dentre outras formas de interação já legitimadas pela tradição.
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