Bolhas Cognitivas e a Falácia da Composição

 

“Três são, portanto, as causas de que os oradores sejam por si dignos de crédito, pois são de igual número as que dão origem à nossa confiança, com exceção das demonstrações. São as seguintes: a prudência, a virtude e a benevolência, porquanto os oradores induzem em erro nos assuntos sobre os quais falam ou aconselham, seja por todas essas razões, seja por alguma delas: ou, por falta de prudência, não têm opinião correta; ou, embora a tenham, por perversidade não a exprimem, ou são prudentes e equitativos, mas não benevolentes, motivo pelo qual é possível que não aconselhem o melhor, embora o conheçam, e nenhuma outra causa há além dessas três.” (Aristóteles, Retórica das Paixões, Martins Fontes). 

A ideia de bolha cognitiva pressupõe um movimento inexorável na utilização de redes sociais sendo causa determinante a assimilação de indivíduos a grupos específicos em suas respectivas ideias, ideologias e comportamentos; fazendo com que os indivíduos participantes dos grupos se fixem em seus respectivos conteúdos, tornando aversivo qualquer ideia dissonante dos pressupostos e consequências estabelecidas pela comunidade. Outro aspecto da bolha cognitiva são os algoritmos das redes sociais preparadas para satisfazer um viés de confirmação, sempre reforçando os conteúdos que foram designados pelo usuário como de maior apelo afetivo, descartando outras possibilidades de interação.

A ideia dessa armadilha narcisista foi alimentada pelo engajamento e utilização cada vez crescente da internet e das redes sociais. A revolução digital em sua acessibilidade fomentou o erro conclusivo de especialistas na possível incapacidade dos usuários da internet de deliberar, como se o ser humano em sua complexidade fosse passível de adestramento, sendo os algoritmos e grupos fechados a grande chave de doutrinação em massa. A manipulação feita pelas mídias tradicionais, agora seria transformada em uma alienação autoimposta por preferências reforçadas pelo poder do algoritmo. [1]

A característica de um conceito falacioso é perceptível pela falta de empiria, factualidade, utilizando de abstrações, metáforas para sinalizar que determinada ideia corresponde a uma proposta de realidade. O que é perceptível por observação e com dados de pesquisa desmonta a tese de bolhas cognitivas uma vez que a ação das pessoas na internet é plural e caracterizada pelo debate de diversos assuntos em diferentes níveis de interação. [2]

É possível apontar o erro crasso desta teoria dos algoritmos e grupos de redes sociais quando nos debruçamos sobre a falácia da composição. Essa falácia é um argumento no qual, a partir da premissa que as partes tem certa propriedade, conclui-se que o todo composto por estas partes tem a mesma propriedade.

A internet em suas múltiplas e complexas propriedades é campo de diversas formas de interação, possibilidades e não será as redes sociais que limitarão o usuário de usufruir de distintas oportunidades experienciais de conhecimento, entretenimento e conexão. O medo mais alardeado era a possível hegemonia da rede social Facebook devida a adesão e aparente consolidação. Porém a concorrência de serviços como Netflix, WhatsApp, YouTube, Google, Wikipédia fazem com que a ideia de hegemonia e bolha cognitiva esteja mais próximo da mera especulação do que de um fenômeno social. [3] [4] [5] [6]

A influência destas plataformas em suas respectivas especificidades abre diversas possibilidades de pensamento, reflexão e modos de ser no mundo. A realidade do brasileiro impede o viés de confirmação, uma vez que viver em sociedade é estar a todo momento sendo convidado a experimentar diversas possibilidades, seja de convites para um jantar, a recomendação de uma nova série ou filme. Muitas das séries assistidas na Netflix resultam em encontros de milhares de pessoas em eventos de pré-estreia.  Youtubers fazem seus encontros presenciais, geram trocas das mais diversas fortalecendo interesses mútuos e não necessariamente idolatria em um único interesse. Google e Wikipédia registram números significativos de busca, de pesquisa, de disposições que resultam em avanço na direção de uma cultura de autodidatismo e auto aperfeiçoamento, exatamente o contrário do que é denunciado por aqueles que só conseguem perceber fenômeno de bolha.

As redes sociais servem como ponto de encontro para marketing existencial, mas não se limita a questões narcísicas, a acomodação das interações sociais tende a uma utilização compartilhada que resolva problemas do cotidiano. A retórica das paixões não tem conexão com a realidade, tenta causar alarde na sociedade que se comporta cada vez mais por si mesma, toma parte pelo todo fazendo com que o medo seja instalado e determinados grupos tomem para si, a responsabilidade de promover a verdadeira pluralidade. Nada mais falso.

Os sofistas do contemporâneo apelam para a inocência e ignorância, a incapacidade de exercitar a prudência, a temperança e fortaleza; se colocam como oradores dignos de crédito subestimando a capacidade humana de por si distinguir o certo do errado, o bem do mal. Diferentes dos sofistas gregos não o fazem pelo dinheiro mas por desejos escusos de diversas ordens.

REFERÊNCIAS

[1] https://www.cartacapital.com.br/sociedade/a-bolha-do-facebook-e-a-astucia-do-capitalismo

[2] https://oglobo.globo.com/economia/ibge-mostra-que-brasileiro-mais-faz-na-internet-mas-voce-ja-sabe-resposta-22416939

[3] https://super.abril.com.br/comportamento/a-wikipedia-e-feita-por-milhoes-de-usuarios/

[4] https://link.estadao.com.br/noticias/empresas,whatsapp-chega-a-120-milhoes-de-usuarios-no-brasil,70001817647

[5] https://www.tecmundo.com.br/google/53852-cerca-de-100-bilhoes-de-buscas-sao-realizadas-no-google-mensalmente.htm

[6] https://tecnologia.ig.com.br/2017-06-22/youtube-usuarios.html

 

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